Legado de Faxinal das Artes segue relevante vinte anos depois
26/05/2022 - 12:04

Faxinal das Artes foi um acontecimento. Literal e figurativamente. No sentido institucional, foi um evento, referendado pelo Governo do Estado do Paraná, à época comandado por Jaime Lerner, com o intuito original de criar acervo para o vindouro Novo Museu (posteriormente batizado Museu Oscar Niemeyer), importando de forma inédita no Brasil o conceito de residência artística, que consiste em, basicamente, juntar um grupo de artistas em um mesmo lugar para ver o resultado.

O que mais importa, todavia, é como Faxinal das Artes foi um acontecimento no sentido figurado. Amplo. Metafórico. Simbólico. Difícil pensar em algum dos envolvidos – ou mesmo daqueles que apenas visitaram – cujo olhar não tenha brilhado ao ser perguntado sobre esses 15 dias de duas décadas atrás. As carreiras, inclinações estéticas e afetos de muitos dos 100 artistas, foram profundamente modificadas ao longo da residência.

Intervenção de Marta Neves em Faxinal das Artes; na faixa se lê "Nós artistas não temos IDEIA do que seja arte contemporânea nem do que seja arte contemporânea mesmo"
Intervenção de Marta Neves em Faxinal das Artes José Gomercindo / Acervo MAC-PR


“A gente olha agora, 20 anos depois, e a partir desse material consegue entender o quanto isso foi importante para a carreira dos artistas”, conta Jhon Erik Voese, pesquisador que dedicou seu mestrado ao Faxinal. “Difícil não falar do José Bechara, que já deu entrevista dizendo que os dez anos seguintes têm relação com o que ele fez em Faxinal, que é bem diferente do que ele tinha feito até então”, completa.

Fernando Bini, curador do evento ao lado de Agnaldo Farias, concorda em como Faxinal das Artes mudou completamente a carreira de Bechara, dizendo que ele costumava levar pelo menos seis meses em uma obra. “Ele explodiu lá, começou a jogar tudo fora!”, contou, reforçando esse início de uma nova fase. Bechara, diante do choque de se sentir distante de seu ambiente de trabalho usual, precisou jogar todos os móveis do seu chalé pela janela, criando uma instalação calcada na frustração.

Obra de José Bechara em Faxinal das Artes
Obra de José Bechara em Faxinal das Artes José Gomercindo / Acervo MAC-PR

Faxinal do Céu
A 340 quilômetros de Curitiba, integrante do município de Pinhão, encontra-se Faxinal do Céu, uma vila projetada para abrigar funcionários que construíram a Hidrelétrica de Foz do Areia. A disponibilidade de chalés, refeitórios e auditórios tornou o lugar ideal (a distância de um grande centro só se converteu em problema durante a execução da residência) para acolher os 100 artistas escolhidos para a residência. 

“A ideia de residências artísticas estava no ar. Talvez fosse uma coisa de fim de milênio, estar debaixo da abóbada celeste, provar do coletivo. Falava-se no desafio do ‘viver junto’”, conta o jornalista José Carlos Fernandes, à época editor do Caderno G, o suplemento cultural da Gazeta do Povo. “Posso estar dizendo uma solene bobagem, mas a ideia latente, no início dos anos 2000, de que estávamos inaugurando um milênio, tinha nas artes visuais – sempre um enigma a ser desvendado – um processo civilizatório”, completou.


Dessa “ideia importada” de se criar residências artísticas, algo inédito no Brasil, junto da valorização das artes plásticas é que vem o espírito de Faxinal das Artes. Se a execução foi ambiciosa – 100 artistas, em 15 dias de imersão, com palestras, shows e discussões diárias, fora a logística de materiais, alimentação e transporte –, a proposta inicial era ainda mais.

Originalmente pensou-se em 300 artistas que entregariam toda a produção para o vindouro MON. O pesadelo logístico-orçamentário se resolveu com 100 artistas: 30 paranaenses e 70 nacionais, entre homens e mulheres em diferentes estágios da carreira. As peças acabaram indo para o Museu de Arte Contemporânea (MAC), já em atividade e, portanto, mais adequado. A ideia era ser o mais plural possível, para poder fomentar “essa possibilidade de troca de ideias”, como disse o então governador Jaime Lerner em uma declaração quando visitou o local. “Faxinal é uma lavoura coletiva. E um Faxinal do Céu já é um upgrade dessa lavoura.”

Depois de duas décadas, para além da materialidade das obras resultantes do processo, a maioria hoje parte do MAC-PR, Faxinal das Artes é lembrado pelo ambiente heterogêneo e amistoso que propiciou as trocas de que Lerner falava. “A gente tinha ali participação de artistas do Brasil inteiro. Desde o Pará, Norte, Nordeste. Centro-Oeste. Essas visões de mundo se intercambiaram nessas trocas”, relembra Dulce Osinski, uma das artistas do grupo e que ali gestou seu notório Catálogo – Brinquedo.

Multiarte
A maioria das noites da quinzena eram reservadas para atividades programadas anteriormente. Palestras de nomes como Zuenir Ventura e Helmut Batista; apresentação de bandas como a Maxixe Machine; e exibição de filmes de diretores como Peter Greenaway, Bill Viola e Raquel Couto eram parte do que ocupava o contraturno. “Um dia apareceu esse gênio Paulinho da Viola”, relembra o portenho radicado em Curitiba Alfi Vivern antes de recontar como o sambista encontrou um antigo patrão, “um português”, que vivia em um asilo na capital paranaense. A ideia de encontros inusitados parecia estar na mente de todos.

O crítico Reynaldo Jardim e Paulinho da Viola
O crítico Reynaldo Jardim e Paulinho da Viola José Gomercindo / Acervo MAC-PR


“O ambiente dessas discussões era muito bacana, mesmo a frequência sendo optativa. Mas todos esses encontros eram muito frequentados e alguns artistas se candidatavam a falar um pouco sobre seu trabalho e depois era aberta uma discussão”, conta Dulce. “E essas discussões eram fantásticas. Não só críticas eram feitas, mas também sugestões, referências a diálogos com outras obras.”

A convivência intensa se tornou a tônica. “Os artistas tomavam cafezinho, almoçavam juntos. À noite a gente se encontrava, fazíamos fogueira. À medida que passavam os dias as pessoas iam tendo mais consciência desse paraíso”, diz Alfi. Paraíso, aqui, em um sentido bem evidente, já que “o ambiente de Faxinal do Céu era meio idílico, então causou um estranhamento, parece que é um cenário montado, tudo muito bonito, jardinado”, reforça Dulce.

Dulce Osinski diante de seu Catálogo - Brinquedos
Dulce Osinski diante de seu Catálogo - Brinquedos José Gomercindo / Acervo MAC-PR


O ambiente idílico e paradisíaco chegou a ser tema de uma intervenção, em que quatro dos artistas pegaram roupas dos Telettubies e passearam por Faxinal. No programa de TV quatro estranhas criaturas habitam um lugar gramado e jardinado, representando essa ideia difusa de paraíso.

MetaFaxinal
Um dos atestados do sucesso de Faxinal das Artes foi como a própria residência foi rapidamente apropriada como tema de obras. Segundo Alfi, “muita gente documentou esse work in progress. Esse momento da práxis”. Dulce reforça que “alguns trabalharam a partir da coleta de material dos colegas”. Tudo isso em contato e relação ao ambiente. Os artistas foram contaminados por si mesmos e pelo ambiente.


Difícil pensar em uma obra que tenha absorvido mais desse espírito do que a de Didonet Thomaz, que “foi uma pessoa importante para mapear esses documentos e a obra fala sobre isso”, comenta Jhon. Seu projeto original era desmontar um dos chalés, mas não foi permitido por se tratar de parte do patrimônio estadual.

Sua opção foi a de seguir o caminho inverso. “Não desmontei. Eu montei uma caixa como se fosse uma casa, e nessa casa tem um diário, dentro de um diário, dentro de um diário, com todas as ferramentas que eu utilizei”, revela a Didonet. “Ela defende que a obra atual tem relação com o que ela fez em Faxinal”, aponta Jhon, reforçando a ideia do impacto duradouro da residência na vida e obra dos artistas. 

Legado
Se para os artistas e para “as artes”, em um sentido bastante amplo, Faxinal foi uma vitória das possibilidades de diálogo entre estado e cultura, não se pode dizer o mesmo da repercussão. “Muita gente à época chiou, mas se achava que ia ter ‘Faxinal das Artes’ todo ano. Acreditam? E que seria bom. Mas nunca mais aconteceu”, relembra José Carlos Fernandes. “A ideia original era que fosse se repetindo, e melhorando”, conta Fernando Bini, que tinha planos para ampliar a quantidade de tempo e reduzir a quantidade de artistas – e, quem sabe, em um lugar um tanto mais próximo de um centro urbano. 

O problema, pondera José Carlos, talvez fosse a impossibilidade do público e, principalmente, da mídia de se relacionar com algo que não fosse “a mesma coisa que a Festa do Porco no Rolete”. Todo o evento – inédito no Brasil, não custa lembrar, “soava exótico. Talvez risível. E um solene desperdício de dinheiro público. Nesse sentido, o projeto frustrou todas as intenções – não teve uma cobertura jornalística capaz de chegar além dos interessados”, pontua.

Alfi Vivern prepara uma de suas obras diante do olhar curioso de crianças
Alfi Vivern prepara uma de suas obras diante do olhar curioso de crianças José Gomercindo / Acervo MAC-PR


Ainda assim, reforça o jornalista, “Faxinal das Artes rendeu boas reportagens em cadernos de cultura – os jornalistas, afinal, foram levados ao município de Pinhão, onde fica a vila da Copel, sede das residências, para fazer isso”. E o que fica de legado, para além do institucional, afinal, é que "faz 15 dias e 20 anos que o nome ‘Faxinal’ invoca um lugar ao qual poucos foram, mas muitos têm certeza de que estiveram lá. Eis a mágica!”

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