Da primeira projeção ao protagonismo feminino: uma história do cinema paranaense
21/06/2022 - 09:48

Dando continuidade aos textos publicados pela COSEM, o da vez é uma homenagem ao Dia do Cineasta, celebrado em 19 de junho e instituído em homenagem a Affonso Segreto, diretor e roteirista ítalo-brasileiro, que nessa data realizou a primeira filmagem em território nacional. O curta-metragem “Uma vista da Baía de Guanabara” foi exibido em 1896 na sala de projeção do Jornal do Commercio no Rio de Janeiro, e mudou para sempre a maneira como presentes se relacionavam com as imagens, representando um sinal de modernidade e nascimento de um novo nicho cultural para o Brasil.

Da primeira projeção ao protagonismo feminino: uma história do cinema paranaense
Affonso Segreto e suas câmeras

 

Após a exibição de Segreto, um grande número de pequenos curtas começou a ser produzido de maneira pioneira e improvisada, sobretudo no eixo Rio-São Paulo. Entretanto, dada a impossibilidade de gravar som com o maquinário da época, tornou-se costume nas grandes capitais do país, numa tentativa de atrair mais público para as projeções, a contratação de cantores e atores para dublar os filmes mudos. O “Cinema Cantado” foi o grande sucesso nacional até o início dos anos 1910, quando começaram a chegar ao Brasil filmes estadunidenses, impulsionados pela influência cultural que os Estados Unidos exercia no início da Primeira Guerra Mundial.

O Início do cinema no Paraná

No Paraná, a primeira exibição de audiovisual aconteceu no dia  25 de agosto de 1897, um ano depois da de Segreto, quando foi realizada uma projeção com imagens em movimento no cinematógrafo do Theatro Hauer, trazida pela companhia estrangeira Faure Nicolay. A produção de filmes local começou a se desenvolver alguns anos depois, em 1907, com a iniciativa do cineasta Aníbal Requião, que inspirado pelas vanguardas estrangeiras começou a filmar o cotidiano da cidade de Curitiba.

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Theatro Hauer no início do século XX, palco da primeira exibição audiovisual do Paraná.

 

Com o fortalecimento do nacionalismo, a produção audiovisual também ganha força. Nos anos 30 consagra-se perante ao público o curta "Pátria Redimida”, produzido pelo cineasta J.B. Groff, que através de suas lentes capturou as movimentações da Revolução Federalista no Paraná, a mesma que dois meses antes da estreia do filme, levou Getúlio Vargas ao poder. Dada sua importância histórica, esse curta foi digitalizado e está disponível no YouTube, dividido em seis partes, que podem ser assistidas clicando nos links a seguir.

(PARTE I)

(PARTE II)

(PARTE III)

(PARTE IV)

(PARTE V)

(PARTE VI)

 

Do início da produção cinematográfica até os anos 30 é possível caracterizar a produção paranaense como uma cena marcada pelos curta-metragens e documentários, também conhecidos na época como cinejornais. A maior parte da produção de não-ficção do período era gravada de maneira artesanal, com equipamentos adquiridos de forma precária e filmes de Super 8, financiados com o dinheiro de produtoras independentes, como a Kosmos, fundada por Alberto Requião, ou a Guaíra, chefiada por Sylvio Back e Sergio Bianchi.

A seguir estão linkados alguns curtas atribuídos a Aníbal Requião, gravados nesse período de pioneirismo do cinema paranaense e disponibilizados no YouTube:

Panorama da cidade de Curityba (1910)

Carnaval Curitybano 1910 (PARTE I)

Carnaval Curitybano 1910 (PARTE II)

Mulheres e suas câmeras

Pode-se dizer que no Paraná fotografia sempre foi coisa de mulher. Desde a inauguração do Estúdio Volk, dirigido por Fanny Volk em princípio junto com o marido, e depois sozinha após 1904, a relação entre mulheres e câmeras sempre foi estreita. Circularam por Curitiba ainda no séc. XX inúmeras fotógrafas, que com seus equipamentos, registravam a cidade e seus modos de vida. Porém, ao pesquisarmos nos arquivos audiovisuais, a história muda de figura, pois o nome de diretoras, produtoras e roteiristas só começa a aparecer nos créditos finais dos filmes depois de 1970.

Da primeira projeção ao protagonismo feminino: uma história do cinema paranaense
Retrato de Fanny Volk, pioneira da fotografia de estúdio em Curitiba.

 

Dito infortúnio pode ser atribuído a diferentes causas: a primeira e mais óbvia é o machismo, que dentro da conjuntura do período impedia que mulheres circulassem livremente pela cidade (sobretudo com um pesado equipamento de gravação), que possuíssem renda própria para comprar os rolos de filmes, ou então que pudessem viajar sozinhas para a Europa e ingressar em instituições de ensino, visando especializarem-se em técnicas de audiovisual. Tais limitantes empurraram as mulheres para posições menos decisivas nos sets: figurinistas, assistentes, maquiadoras, que coincidentemente (ou não) eram esquecidas dos créditos finais.

Sendo assim, existe dentro da historiografia do audiovisual um problema de nível nacional, que implica na grande dificuldade de mapear a presença de mulheres na produção cinematográfica, exceto pelo relato de terceiros (geralmente homens), que atribuíam em entrevistas dadas a periódicos locais, algum crédito a essas pioneiras. Exemplo disso é o caso da carioca Beatriz Roquette Pinto Bojunga, que mesmo sendo filha de um dos maiores nomes do radialismo no Brasil, Edgard Roquette-Pinto, e possuir estreita ligação com Glauber Rocha e demais destaques da cena, teve seu nome completamente apagado de todas as produções que ajudou a realizar como figurinista e secretária do INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo).

De mulheres que se tem registro dentro da cena paranaense, os primeiros nomes surgem timidamente com a inauguração do cineclube do Museu Guido Viaro, em 1975. O lugar por vezes descrito como reduzido e apertado, abrigou durante os anos 70 e 80, mesmo com a fiscalização da ditadura militar, um circuito de cinema progressista, cuja presença de mulheres era constante, seja como pesquisadoras, ou como realizadoras audiovisuais. Além da exibição de filmes, cuja proposta englobava o protagonismo feminino, histórias de indígenas e quilombolas, e resistência negra, o cineclube também foi responsável por trazer profissionais estrangeiros e ministrar cursos gratuitamente, o que capacitou boa parte dessas mulheres como cineastas.

Estavam presentes nessas iniciativas Berenice Mendes e Lu Rufalco, articuladoras e diretoras de curtas e longas-metragens, professoras em cursos de cinema e donas de produtora própria; Elizabeth, Ingrid e Rosane Wagner, irmãs e pioneiras na animação com Super 8; Elisabeth Karam e Solange Stecz, importantes pesquisadoras do audiovisual paranaense; Vilma Nogueira, coordenadora da programação do Cine Groff, um dos maiores de Curitiba e Heloisa Passos, cuja produção chegou a importantes núcleos de cinema de São Paulo. No link a seguir é possível ver um dos filmes dirigidos por Elizabeth Wagner, A Alma da Imagem  um documentário que exalta Helmuth Wagner, um dos grandes nomes do audiovisual do Paraná.

Com os esforços advindos do cineclube, e outras iniciativas posteriores que foram igualmente importantes, a presença de mulheres na cena de audiovisual paranaense cresceu exponencialmente, mas ainda está longe de ser equiparada ao volume e ao prestígio da produção masculina, que por conta do machismo e da segregação advinda do período, consolidou-se perante o status quo. São iniciativas contemporâneas como a escrita deste artigo, a publicação de pesquisas, o levantamento bibliográfico em centros de guarda de acervo audiovisual, e abertura de mais editais de fomento que redescobrem a presença destas pioneiras, restaurando o devido crédito pelo seu trabalho, e assegurando espaço, respaldo e financiamento para mais produções femininas e feministas futuras.

 

Este texto foi escrito por Sara da Silva Uliana, estagiária de Museologia da COSEM, e revisado pela museóloga Raisa Ramni Rosa.

 

REFERÊNCIA

CARVALHO. J.L. Cinema no Paraná: Breves Apontamentos. Comunicação Paraná. 2021. Disponível em: https://www.comunicacao.pr.gov.br/Noticia/MIS-PR-celebra-historia-do-Parana-com-o-cinema. Acesso em: 08 junho de 2022

FRANÇA. Ana Claudia Camila Veiga. Mulheres no Circuito de Cinema de Curitiba de 1976 a 1989. Orientador: Prof. Dr. Ronaldo de Oliveira Corrêa. 2021. 286 páginas. Tese (Doutorado em Tecnologia e Sociedade, foco em mediações e culturas). Departamento de Ciências Humanas e Letras, Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Curitiba. Paraná.

GRUNER, Clovis. A cidade como filme: cinema e cultura moderna na Curitiba da Primeira República. Percursos. Florianópolis. V.17. n.33, pg 56 -, 2016. Disponível em: https://www.revistas.udesc.br/index.php/percursos/article/view/1984724617332016056 . Acesso em: 08 de junho de 2022

STECZ. Solange Strause. Cinema Paranaense 1900 - 1930. Orientador: Dr Oksana Boruszenko. 1988. 191 páginas. Dissertação (Pós Graduação em História, foco em História Social). Departamento de Ciências Humanas, Letras e Artes. Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Paraná.

SZESZ. Cristiane Marques. A Invenção do Paraná: O discurso regional e as fronteiras cartográficas (1889 - 1920). Orientador: Prof. Dr. Euclides Marchi. 1997. 197 páginas. Dissertação (Pós Graduação em História do Brasil, foco em História das Ideias). Departamento de Ciências Humanas, Letras e Artes. Universidade Federal do Paraná, Curitiba. Paraná.

 

 

 

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